DOI: 10.36638/1981-061X.2020.v26.588
Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar
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Capitalismo periférico: do desenvolvimento atrofiado à
reiteração das desigualdades globais
Ronaldo Fabiano dos Santos Gaspar
1
Resumo: Após a II Guerra Mundial, parte importante do eixo industrial dos
países centrais deslocou-se do Ocidente para o Japão, Tigres asiáticos e, mais
recentemente, China. Nesse período, países como Argentina, México, Brasil e
África do Sul também passaram por forte industrialização. Porém, eles nunca
foram centrais como o Japão e nem experimentaram as condições excepcionais
que permitiram aos Tigres asiáticos ascenderem a essa posição. Igualmente,
também não se tornaram, como a China, um misto de atraso e modernidade
permeado por muitas indústrias de alta tecnologia e pesquisa de ponta. Por
meio da apresentação e análise de algumas informações econômicas e sociais
obtidas em bancos de dados de organismos internacionais, objetiva-se
demonstrar como a imensa maioria dos países de industrialização hipertardia
continua ocupando posições desfavoráveis na divisão mundial do trabalho, na
hierarquia de poder dos estados e reproduzindo enorme desigualdade interna
entre seus cidadãos. Nesse sentido, por subvalorizar as lutas de classes
nacionais e a força econômica inibidora que é a concorrência das empresas dos
países centrais, considera-se que, cultivando expectativas de desenvolvimento
sem rupturas revolucionárias, as ideias reformistas precisam ser
definitivamente enterradas.
Palavras-chave: capitalismo; sistema-mundo; países centrais; países
periféricos; China.
Peripheral capitalism: from stunted development to the
reiteration of global inequalities
Abstract: After the II World War, an important part of the industrial axis of
the central countries moved from the West to Japan, Asian Tigers and, more
recently, China. During this period, countries like Argentina, Mexico, Brazil
and South Africa also underwent strong industrialization. However, they were
1
Doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professor da
Universidade Estadual de Londrina (UEL). Autor de John Stuart Mill: apontamentos críticos
às relações entre propriedade, liberdade e poder político (Charleston, USA: CreateSpace, 2014)
e co-organizador de Cem anos da Revolução de Outubro (1917-2017): balanços e perspectivas
(Londrina: Eduel, 2020). E-mail: ronaldogaspar@uel.br.
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never as central as Japan, nor did they experience the exceptional conditions
that allowed Asian Tigers to rise to that position. Nor have they, like China,
become a mixture of backwardness and modernity permeated by many high-
tech and cutting-edge research industries. Through the presentation and
analysis of some economic and social information obtained from databases of
international organizations, the objective is to demonstrate how most
countries with hyper late industrialization continue to occupy unfavorable
positions in the world division of labor, in the hierarchy of power of the States
and reproducing enormous internal inequality among its citizens. In this
sense, by underestimating the struggles of national classes and the inhibiting
economic force that is the competition of companies from central countries, it
is considered that, cultivating expectations of development without
revolutionary ruptures, reformist ideas must be definitively buried.
Keywords: capitalism; world-system; central countries; peripheral
countries; China.
Capitalismo periférico: del desarrollo atrofiado a la
reiteración de las desigualdades globales
Resumen: Después de la II Guerra Mundial, una parte importante del eje
industrial de los países centrales se trasladó de Occidente a Japón, Tigres
asiáticos y, más recientemente, China. Durante este período, países como
Argentina, México, Brasil y Sudáfrica también experimentaron una fuerte
industrialización. Sin embargo, nunca fueron tan centrales como Japón, ni
experimentaron las condiciones excepcionales que permitieron a los Tigres
asiáticos llegar a esa posición. Tampoco, como China, se han convertido en una
mezcla de atraso y modernidad permeada por muchas industrias de
investigación de alta tecnología y de vanguardia. A través de la presentación y
análisis de alguna información económica y social obtenida en bases de datos
de organismos internacionales, el objetivo es demostrar cómo la gran mayoría
de países con industrialización muy tardía continúan ocupando posiciones
desfavorables en la división mundial del trabajo, en la jerarquía de poder de
los estados. y reproducir una enorme desigualdad interna entre sus
ciudadanos. En este sentido, al subestimar las luchas de clases nacionales y la
fuerza económica inhibidora que es la competencia de las empresas en los
países centrales, se considera que, cultivando expectativas de desarrollo sin
rupturas revolucionarias, las ideas reformistas deben ser definitivamente
enterradas.
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Palabras clave: capitalismo; sistema-mundo; países centrales; países
periféricos; China.
Introdução
Nas décadas imediatamente subsequentes à II Guerra Mundial, em
meio à guerra fria e à descolonização da África e da Ásia, a industrialização de
alguns países periféricos (na linguagem da época, atrasados) surpreendeu e
criou expectativas em relação à diminuição da distância econômica e social
ante os países centrais
2
(industrializados). Inspirados nas experiências de
intervenção estatal ocorridas na Alemanha, Japão, Estados Unidos e na União
Soviética, e influenciados pelas elaborações teóricas keynesianas, muitos
intelectuais se dedicaram a analisar os motivos pelos quais a maioria dos países
se mantinha em condição de atraso. O próprio objeto de análise, porém, os
impulsionava a se afastarem de uma visão meramente contemplativa dos
problemas; por isso, a maioria tinha por objetivo contribuir para que os países
periféricos iniciassem ou intensificassem a sua industrialização e superassem
os seus mais graves problemas econômicos e sociais
3
. Entre os estadunidenses,
a busca pela compreensão da nova realidade também visava a orientar ações
de modo a consolidar a recém-conquistada posição do país como potência
hegemônica do mundo capitalista
4
e modelo para as outras nações (ROSTOW,
1964).
Como lembra Immanuel Wallerstein, “em 1945, o mundo mudou de
maneira decisiva, e como resultado de tal configuração as ciências sociais se
viram submetidas a importantes desafios” (WALLERSTEIN, 2005, p. 23).
Sendo que, naquele momento, o desenvolvimento passou a ser o novo assunto
centralizador do trabalho intelectual (2002, p. 123). Para Arndt, importante
historiador da ideia de desenvolvimento, este era entendido basicamente como
“sinônimo de crescimento da renda per capita nos países menos
desenvolvidos” (ARNDT, 1981, p. 485). Mesmo um marxista como Paul Baran
2
Centro e periferia são “nomes que na verdade refletem a estrutura geográfica dos fluxos
econômicos” (WALLERSTEIN, 2001, p. 30).
3
Dentre os muitos intelectuais da época, o engajamento científico e político do brasileiro Celso
Furtado foi certamente um caso exemplar: “a análise dos processos econômico-sociais não tem
outro objetivo senão produzir um guia para a ação. Em verdade, essa mesma análise aponta
para a ação” (FURTADO, 1962, p. 16).
4
Segundo Immanuel Wallerstein (2015, p. 24), “o estado ‘mais desenvolvido’ podia ser
oferecido como modelo para os estados ‘menos desenvolvidos’, exortando-os a iniciarem um
certo tipo de ação mimética que prometesse encontrar uma melhor qualidade de vida e uma
estrutura governamental mais liberal (‘desenvolvimento político’) ao final do arco-íris. Isso era
obviamente uma ferramenta intelectual útil para os Estados Unidos, e seu governo e suas
instituições fizeram todo o possível para incentivar a expansão dos estudos de área em grandes
(e até pequenas) universidades”.
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(1986, p. 132) assim o definia: “o que caracteriza todo país subdesenvolvido, o
que na realidade responde pela sua classificação como subdesenvolvido, é a
exiguidade de seu produto social per capita”. Mas, com abordagens e matizes
variadas, o termo desdobrou-se em novas dimensões social, política,
ambiental, cultural etc. (MOREIRA, CRESPO, 2012). Surgiram campos de
conhecimento próprios no interior de ciências sociais, como a economia do
desenvolvimento (AGARWALA, SINGH, 2010; BRANDÃO, 2018) e a
sociologia do desenvolvimento (FERREIRA, 1993). Contudo, apesar das
especificidades e ênfases, a industrialização era (e, em geral, ainda é) vista
como cerne do desenvolvimento e “um imperativo no processo de catch up
dos países periféricos em relação aos centrais (NAYYAR, 2013, p. 98).
Por décadas, sob governos mais à direita ou mais à esquerda, de feições
mais autocráticas ou democráticas, muitos países periféricos se urbanizaram e
desenvolveram alguma produção industrial. Em certos aspectos, alguns países
“atrasados” se “modernizaram”. Poucos, porém, construíram um parque
industrial com elevado grau de complexidade, conjugando indústrias de bens
de consumo não-duráveis, duráveis e até mesmo de bens de capital. Embora
em novas condições, a divisão axial do trabalho numa economia-mundo
capitalista [continuou a dividir] a produção em produtos centrais e produtos
periféricos” (WALLERSTEIN, 2005, p. 43). Dentre os periféricos que
alcançaram uma industrialização mais complexa estão Argentina, Brasil,
México, Índia, África do Sul e poucos outros. Segundo Wallerstein,
o que todos os países não-centrais membros das Nações Unidas da
URSS à Argentina, da Índia à Nigéria, da Albânia a Santa Lúcia
tinham em comum era o objetivo público geral de aumentar a
riqueza da nação e modernizar a sua infraestrutura. Também era
compartilhado o otimismo subjacente a esse objetivo. A isto se
somava a ideia de que seria mais fácil atingir o objetivo com a plena
participação no sistema internacional (2002, p. 122).
Para a economista Alice Amsden (2009, p. 29), “a ascensão do ‘resto’ foi
uma das mudanças fenomenais da segunda metade do século XX”. E ela tem
razão. Mas, qual o saldo econômico e político dessa ascensão/modernização
para a resolução dos problemas estruturais desses países? Diminuiu a
diferença da renda per capita ou eliminou a dependência tecnológica e
financeira em relação aos países centrais (governos, empresas e bancos)? Suas
estruturas econômicas se tornaram mais homogêneas? Foram criadas
condições socioeconômicas compatíveis com sociedades menos desiguais e
mais democráticas? E mais, é racional manter a expectativa de superação
desses problemas sob o domínio do capital? Essas são algumas questões que
permitem avaliar os resultados dessas últimas décadas e refletir sobre o
desenvolvimento econômico e social dos países periféricos.
Com base em algumas reflexões de Wallerstein (2001; 2002; 2005),
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Arrighi (1997; 2013) e Amin (2006) sobre a articulação entre os estados
nacionais e o sistema-mundo, de Duménil e Levy (2014) sobre a crise
estrutural do capital e de István Mészáros (2002) também sobre este tema e a
necessidade de superação do capital (e não apenas do capitalismo), objetiva-
se investigar alguns dados sobre a evolução e a atual situação econômica e
social de diversos países, procurando avaliar se a industrialização tem efetuado
(NAYYAR, 2013) ou não (REINERT, 2016) a redução do gap dos países
periféricos ante os países centrais
5
e, de algum modo, contribuído para a
construção de regimes políticos mais democráticos. Para essa avaliação, serão
analisados livros, artigos, jornais e bancos de dados de instituições
multinacionais e governamentais. Não se trata de uma reflexão sobre as ideias
e políticas econômicas (com acertos e erros de governos) efetivadas em cada
país ao longo do período, mas de investigar num olhar de médio prazo e num
contexto de condicionamentos econômicos globais alguns aspectos do saldo
econômico e político daquele período decisivo (e esperançoso) de efetivação e
consolidação da indústria em alguns países periféricos.
Capitalismo global: uma “economia-mundo” dividida e desigual
uma vasta literatura que questiona as análises de desenvolvimento
econômico assentadas na priorização das características étnico-raciais,
5
Como veremos, a linha básica das diferenças entre os grupos de países está relacionada ao
modo de integração ao mercado mundial e, portanto, ao capitalismo , bem como ao
desenvolvimento industrial. Obviamente, toda classificação implica em escolhas assentadas
em certas características dos objetos classificados. Sendo assim, utilizando como referência
(mas não reproduzindo literalmente) a classificação utilizada por Wallerstein (2001; 2002;
2005) e Arrighi (1997; 2013), consideram-se centrais os países que primeiro se
industrializaram e/ou passaram por profundas transformações econômicas e políticas que os
alçaram a níveis elevados de renda per capita, certo bem-estar de suas populações (acesso a
bens de consumo, educação, saúde etc.) e, em geral, direitos civis e políticos consolidados
(Estados Unidos, Canadá, Europa Central e do Norte, Japão e Oceania). Por países
semiperiféricos, entende-se aqueles que não foram colônias, mas chegaram a meados do
século XX com industrialização ainda frágil, renda per capita bem abaixo dos países centrais
(Europa do Sul) e/ou passaram por revoluções ou guerras (civis ou não) que levaram a
transformações profundas em sua configuração social e política (Europa do Leste e Rússia).
Por periféricos, os países não industrializados ou de industrialização hipertardia, baixa renda
per capita, regimes políticos de feições fortemente autocráticas ou, quando existem,
democracias frágeis (de modo geral, países que foram colônias ou sofreram processos de
colonização/espoliação econômica: África, América Latina e Ásia excetuando Japão, Tigres
asiáticos e China). Quanto aos Tigres asiáticos, são países de industrialização hipertardia, mas
que, por motivos históricos excepcionais (ARRIGHI, 2013), alcançaram renda per capita e
condições gerais de vida (acesso a bens de consumo, saúde, educação, complexidade
tecnológica etc.) muito próximas ou iguais às dos países centrais. Por fim, há o caso da China,
que, embora tenha sido economicamente espoliada por mais de um século, nunca foi
propriamente uma colônia e, além disso, passou por uma revolução social e transformações
dela decorrentes que criaram uma potência econômica global com características simultâneas
dos diversos grupos de países.
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geográficas, culturais ou institucionais. E, embora o institucionalismo ainda
seja muito presente no pensamento político e econômico (como demonstra o
imerecido sucesso de Por que as nações fracassam, de Daron Acemoglu e
James Robinson, 2012), as análises mais consistentes sobre o desenvolvimento
consideram que os traços essenciais dos países do mundo contemporâneo
remontam às suas relações capitalistas originárias, estabelecidas no período
mercantilista e vigorosamente consolidadas com a industrialização. Isso não
significa negar a relevância das particularidades sejam elas econômicas,
políticas ou culturais que atuam na conformação de países e regiões, mas
considerar que as suas diferentes histórias de desenvolvimento estão
prioritariamente relacionadas ao modo de constituição e integração ao
capitalismo especialmente a articulação de interesses (e conflitos) entre as
classes dominantes centrais e as periféricas e suas consequências. Por isso,
não é casual que, com raras exceções, a despeito da grande variedade de
situações específicas de cada país (população, território, recursos naturais,
perfil das atividades econômicas e, claro, dinâmica da luta de classes), a
polarização originária entre, de um lado, os colonizadores (dos ingleses aos
japoneses) e suas colônias de povoamento (dos Estados Unidos e Canadá à
Austrália e Nova Zelândia) e, de outro, as colônias de exploração (América
Latina, África e Ásia excetuando Rússia) corresponda em larga medida à
atual divisão centro-periferia, países desenvolvidos e em desenvolvimento
6
.
Outrossim, com a Revolução Industrial e a industrialização pioneira
(Inglaterra, França, Bélgica, Países Baixos, Estados Unidos) ou tardia
(Alemanha, Itália, Japão) dos atuais países centrais, essa polarização tornou-
se muito mais tenaz e facilmente identificável pela divisão do trabalho
(existente sob a vigência das manufaturas, e que foi amplamente reforçada)
entre industrializados e atrasados (exportadores de matérias-primas agrícolas
e minerais). Portanto, com modos e ritmos distintos de desenvolvimento
capitalista, configurou-se um mundo marcado pelo desenvolvimento desigual
e combinado (LÖWY, 1998; NOVACK, 1998).
Ocorre que, a partir dos anos 1930, por caminhos muito diversos (por
exemplo, URSS e Brasil), alguns países “atrasados” passaram por um rápido
desenvolvimento industrial e trouxeram novos desafios práticos e teóricos,
como demonstra a explosão da literatura sobre desenvolvimento e
dependência nas décadas de 1950-60.
Num recente estudo sobre as “sociedades em desenvolvimento”, no qual
avaliza a ideia de que a industrialização tem contribuído para o catch up dos
países periféricos em relação aos países centrais, o economista indiano Deepak
6
Inclusive, essa compreensão antecede marxistas e cepalinos. Num artigo recente, Monastério
e Ehrl (2019) apresentaram uma sintética e competente explanação da evolução dessa tese da
colonização como condicionante do tipo de evolução da sociedade, que, segundo eles, remonta
a Adam Smith e a pensadores alemães e franceses.
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Nayyar (2013, p. 50) sustenta que 1950 talvez tenha sido um importante
momento da viradana corrida pela industrialização e pelo desenvolvimento,
com significativas implicações geopolíticas. E, de fato, alguns países periféricos
tiveram um importante incremento de seus parques industriais nesta década e
nas posteriores. Inclusive, por um bom tempo, o Brasil foi “o caso mais típico
de subdesenvolvimento industrializado” (PEREIRA, 1986, p. 63). Nele, a
segunda metade da década de 1950 efetivamente demarcou a transição do
período de substituição de importações para a constituição de uma economia
industrializada com forte presença de empresas estatais e multinacionais, “o
Brasil transformara-se em um país industrializado, ainda que permanecesse
notoriamente subdesenvolvido” (FURTADO, 1975, p. 33)
7
. E mais, “depois do
extraordinário surto industrial ocorrido nele, as oposições e as dúvidas de
caráter fundamentalmente ideológico quanto às possibilidades de
industrialização do Brasil desapareceram. A crença na vocação agrícola do
Brasil perdeu qualquer substância” (PEREIRA, 1976, p. 53). A industrialização
avançou e, como proporção da composição das atividades econômicas, o ápice
da indústria brasileira ocorreu em 1985, quando correspondeu a 48% do PIB
(IBGE).
No entanto, se realmente houve um importante crescimento da
produção industrial de alguns países periféricos, deve-se frisar também que,
em 1970, a produção dos países centrais ainda correspondia a 72,6% do total
mundial.
PIB
Nas décadas seguintes, como se pode observar no Gráfico 1, algumas
mudanças significativas realmente ocorreram. Dentre elas, chamam muito a
atenção: 1) o forte declínio proporcional da produção industrial dos países
centrais de 72,6% para 40,2% e dos países semiperiféricos (sul e leste da
Europa e Rússia) de 14,3% para 7,1%; 2) o baixo crescimento da produção
dos países periféricos, de 14,3% para 20,5%; 3) e a forte presença da produção
industrial chinesa no século XXI, cujos dados disponíveis demostram
corresponder a 28,6% da produção mundial em 2018. Hoje, a produção
industrial chinesa é maior do que a soma da produção industrial dos países
periféricos e semiperiféricos.
7
Não cabe aqui indicar um ou outro livro, pois há vasta literatura sobre o tema, com especial
relevo as obras de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, Maria da Conceição Tavares e
Francisco de Oliveira.
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Fonte: United Nations Statistics Division. 2020. Elaboração própria
Junto com a produção industrial, a participação dos países no PIB
mundial também sofreu forte modificação no referido período. Há, porém,
algumas diferenças. No Gráfico 2, também se observa o declínio proporcional
do PIB dos países centrais, mas relativamente menor do que o industrial,
passando de 68,1% para 50,1%. No caso dos países semiperiféricos, os números
do PIB total foram muito próximos daqueles do PIB industrial
respectivamente, de 13,6% para 8,2%. Os números dos Tigres asiáticos foram
idênticos aos do Gráfico 1, de 0,4% para 3,7%.
Com números um pouco diferentes, a trajetória dos países periféricos
também repetiu a pequena ascensão industrial, de 14,3% para 20,5%. Se, como
o faz Deepak Nayyar (2013), incluirmos a China entre eles, o crescimento
realmente se demonstra bastante significativo. Dentre as 10 maiores
economias em 2018, 3 não eram dos países centrais (China (2º), Índia (5º) e
Brasil (9º)). Em 1970, apenas o Brasil (10º) estava entre elas. Porém, se há
motivos que justificam a inclusão da China como um país periférico, há outros
tantos que não; e o principal deles é: a China é um país de proporções
continentais e gigantesca população que passou por uma revolução social, os
outros não. Isso trouxe enormes consequências para todas as dimensões da
vida naquele país. Daí que a inclusão da China como mais um país entre os
40,2%
7,1%
20,5%
28,6%
3,7%
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
1970
1972
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
2006
2008
2010
2012
2014
2016
2018
Gráfico 1. Participação dos países na produção mundial da
indústria (%) - 1970-2018
Países centrais Países semiperiféricos Países periféricos
China Tigres asiáticos