TRADUÇÃO  
DOI 10.36638/1981-061X.2026.31.1.789  
T r a d u ç ã o  
_____  
Correspondência  
Engels para Joseph Bloch*  
em Königsberg  
Londres, 21 de setembro de 1890  
Prezado Senhor,  
Sua carta do dia 3 foi encaminhada para mim em Folkestone; no entanto, como  
eu, na ocasião, não tinha o livro1 em questão, não pude responder.[1]  
Ao chegar em casa novamente no dia 12, encontrei uma pilha tão grande de  
trabalho urgente que só agora consigo escrever-lhe algumas linhas. Isto é para explicar  
o atraso, com minhas sinceras desculpas.  
Em relação ao ponto I: Em primeiro lugar, o senhor pode ver na página 19 de  
"A Origem"2 que o processo de crescimento da família Punalua é apresentado como  
sendo tão gradual que, mesmo neste século, casamentos entre irmãos (da mesma mãe)  
ocorreram na família real do Havaí. E ao longo da antiguidade, encontramos exemplos  
de casamentos entre irmãos, por exemplo, mesmo entre os Ptolomeus. Aqui, porém, é  
preciso fazer uma distinção em segundo lugar entre irmãos por parte de mãe e  
irmãos exclusivamente por parte de pai; αδελφός, αδελφή3 vêm do útero de δελφύς4,  
significando originalmente apenas irmãos por parte de mães. E, desde o período do  
matriarcado, persistiu por muito tempo a ideia de que filhos de uma mesma mãe,  
mesmo que de pais diferentes, são mais próximos entre si do que filhos de um mesmo  
pai, mas de mães diferentes. A forma de família Punalua exclui apenas os casamentos  
*
MARX-ENGELS WERKE - Band 37 - Briefe von Friedrich Engels, Januar 1888-Dezember 189 pp. 463–  
465. Tradução: Ronaldo Vielmi Fortes  
1
Friedrich Engels: Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staats.  
[1] Joseph Bloch, em sua carta de 3 de setembro de 1890, havia dirigido as duas seguintes perguntas a  
Engels: 1. Como se explica que, mesmo após o fim da família de consanguinidade, os casamentos entre  
irmãos não fossem proibidos entre os gregos; 2. Se, segundo a concepção materialista da história, as  
relações econômicas são o único momento determinante ou apenas, de certa forma, a base sólida de  
todas as outras relações, que, por sua vez, também podem exercer influência. [N. Werke]  
2
Siehe Band 21 unserer Ausgabe, S.44-45.  
irmão, irmã  
Delfos [N.T.]  
3
4
ISSN 1981 - 061X v. 31, n. 1 jan.-jun., 2026  
Verinotio  
nova fase  
           
Carta a Joseph Bloch  
entre os primeiros, mas de forma alguma entre os últimos, que, segundo a concepção  
correspondente, nem sequer são aparentados (trata-se do matriarcado). Ora, até onde  
sei, os casos de casamentos entre irmãos que ocorreram na Grécia Antiga limitam-se  
àqueles em que as pessoas têm mães diferentes ou em que isso é desconhecido e,  
portanto, não excluído, não contradizendo assim o uso Punalua. Você ignorou o fato  
de que entre o período Punalua e a monogamia grega ocorre o salto do matriarcado  
para o patriarcado, o que altera significativamente a situação.  
De acordo com "Antiguidades Helênicas", de Wachsmuth, na era heroica entre  
os gregos, "não há vestígios de quaisquer reservas quanto ao parentesco próximo  
entre cônjuges, exceto na relação entre pais e filhos" (III, p. 157). "Casar-se com a  
própria irmã não era considerado ofensivo em Creta" (ibid., p. 170). Esta última  
afirmação baseia-se em Estrabão5, Livro X, mas não consigo localizar a passagem no  
momento devido à falta de divisão em capítulos. Até que se prove o contrário, entendo  
que "própria irmã" se refere às irmãs por parte de pai.  
Em relação ao ponto II, qualifico sua primeira proposição principal da seguinte  
forma: De acordo com a concepção materialista da história, o momento determinante  
em última instância na história é a produção e reprodução da vida real. Nem Marx nem  
eu jamais afirmamos nada além disso. Se alguém agora distorce isso para sugerir que  
o momento econômico é o único momento determinante, transforma essa proposição  
em uma frase sem sentido, abstrata e absurda. A situação econômica é a base, mas os  
vários elementos da superestrutura as formas políticas de luta de classes e seus  
resultados as constituições estabelecidas pela classe vitoriosa após uma batalha,  
etc. , as formas do direito e até mesmo os reflexos de todas essas lutas reais nas  
mentes dos envolvidos, as teorias políticas, jurídicas e filosóficas, as visões religiosas  
e seu desenvolvimento em sistemas de dogma, também exercem sua influência no  
curso das lutas históricas e, em muitos casos, determinam predominantemente sua  
forma. É uma interação de todos esses momentos em que, em última análise, através  
de todo o número infinito de contingências (isto é, de coisas e eventos cuja conexão  
interna entre si é tão remota ou tão indetectável que podemos desconsiderá-la), o  
movimento econômico prevalece como uma necessidade. Caso contrário, aplicar a  
teoria a qualquer período histórico seria mais fácil do que resolver uma simples  
equação de primeiro grau.  
Nós fazemos nossa própria história, mas, antes de tudo, sob pressupostos e  
5
Historiador, geógrafo e filósofo grego. Foi o autor da monumental Geografia, um tratado de 17 livros  
contendo a história e descrições de povos e locais de todo o mundo que lhe era conhecido à época. [N.  
T.]  
Verinotio  
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Friedrich Engels  
circunstâncias muito determinadas. Os momentos econômicos são, em última análise,  
decisivos. Mas os momentos políticos, e até mesmo as tradições que permeiam a  
cabeça dos homens, também desempenham um papel, embora não seja o decisivo. O  
Estado prussiano também surgiu e se desenvolveu por meio de causas históricas e,  
em última instância, econômicas. No entanto, dificilmente se pode argumentar, sem  
pedantismo, que, entre os muitos pequenos estados do norte da Alemanha,  
Brandemburgo estava destinado a se tornar a grande potência na qual as diferenças  
econômicas, linguísticas e, desde a Reforma, também religiosas entre o Norte e o Sul  
se materializaram, principalmente por necessidade econômica e não por outros  
momentos (sobretudo, seu envolvimento com a Polônia por meio da posse da Prússia  
e, portanto, com as circunstâncias políticas internacionais que também foram  
cruciais na formação da base de poder austríaca). Será difícil explicar economicamente  
a existência de cada pequeno estado alemão do passado e do presente, ou a origem  
da mudança fonética do alto alemão, que ampliou a linha divisória geográfica formada  
pelas montanhas dos Sudetes ao Tauno em uma ruptura formal na Alemanha, sem  
parecer ridículo.  
Em segundo lugar, a história se desenrola de tal forma que o resultado final  
sempre surge dos conflitos de muitas vontades individuais, cada uma moldada por  
uma multiplicidade de circunstâncias de vida particulares; assim, existem inúmeras  
forças que se cruzam, um grupo infinito de paralelogramos de forças, dos quais emerge  
um resultado o desfecho histórico que pode ser considerado o produto de um  
poder que, como um todo, age inconscientemente e sem vontade própria. Pois o que  
cada indivíduo deseja é bloqueado por todos os outros, e o que emerge é algo que  
ninguém intencionou. Assim, a história até o momento procede como um processo  
natural e está essencialmente sujeita às mesmas leis do movimento. Mas o fato de as  
vontades individuais cada uma desejando o que sua constituição física e as  
circunstâncias externas, em última instância econômicas (sejam elas pessoais ou da  
sociedade em geral) a impulsionam a fazer não alcançarem o que desejam, mas sim  
convergirem para uma média comum, um resultado compartilhado, não deve levar à  
conclusão de que devam ser consideradas = 0. Pelo contrário, cada uma contribui para  
o resultado e, portanto, está incluída nele.  
Além disso, gostaria de pedir que estudassem essa teoria nas fontes originais  
e não em fontes secundárias; é realmente muito mais fácil. Marx praticamente não  
escreveu nada em que elas não desempenhem um papel. Em particular, "O Dezoito  
Brumário de Luís Bonaparte" é um excelente exemplo de sua aplicação. Da mesma  
forma, há muitas referências a elas em "O Capital". Posso também indicar meus  
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escritos: "A Revolução na Ciência de Herrn E. Dühring" e "L. Feuerbach e o Fim da  
Filosofia Clássica Alemã", onde apresentei a exposição mais abrangente do  
materialismo histórico que, até onde sei, existe.  
O fato de pensadores mais jovens às vezes darem mais ênfase ao aspecto  
econômico do que ele merece é em parte culpa de Marx e minha. Tínhamos que  
enfatizar, diante de nossos oponentes, o princípio fundamental que eles negavam, e  
nem sempre havia tempo, lugar ou oportunidade para dar a devida consideração aos  
outros momentos envolvidos nessa interação. Mas, assim que se tratava da  
apresentação de um período histórico, ou seja, da aplicação prática, a questão mudava,  
e não havia margem para erros. Infelizmente, é muito comum as pessoas acreditarem  
que compreenderam completamente uma nova teoria e que podem aplicá-la facilmente  
assim que entendem seus princípios fundamentais, e mesmo assim, nem sempre  
corretamente. E não posso poupar alguns dos "marxistas" mais recentes dessa crítica,  
e coisas realmente notáveis foram feitas a esse respeito.  
Quanto ao ponto I, ontem (escrevo isto em 22 de setembro) encontrei a  
seguinte passagem crucial em Schoemann, "Antiguidades Gregas", Berlim, 1855, Vol.  
I, p. 52, que confirma plenamente o que relatei acima: "É sabido que os casamentos  
entre meio-irmãos de mães diferentes não eram considerados incesto na Grécia tardia."  
Espero que as terríveis digressões que me foram impelidas pela pena, em prol  
da brevidade, não o desanimem demasiado, e permaneço seu cordialmente,  
O seu dedicado  
F. Engels  
De: “Der sozialistische Akademiker”.  
Vol. 1, nº 19. Berlim, 1 de outubro de 1895.  
Como citar:  
ENGELS, Friedrich. Carta a Joseph Bloch. Verinotio, Rio das Ostras, v. 31, n. 1, pp. 510-  
513; jan.-jun., 2026.  
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