dossiê
DOI 10.36638/1981-061X.2026.31.1.798
Propriedade privada e mistificação da
distribuição: equalização e formas do mais-valor
na crítica marxista do direito
Private property and the mystification of distribution:
equalization and the forms of surplus value in the
Marxist critique of law
Resumo: No Brasil, a crítica marxista ao direito,
hegemonicamente, baliza-se pela obra Teoria
geral do direito e marxismo, de Evguiéni B.
Pachukanis. A pedra de toque dessa crítica é a
centralidade do direito na equivalência formal
entre capitalistas e trabalhadores, responsável
por permitir a venda da força de trabalho.
Embora a relevância do autor soviético seja
inegável, o foco de sua obra circunscreve-se a
uma parte do Livro I de O capital, no qual se
pressupõe que as mercadorias são vendidas
pelos seus valores. Portanto, trata-se de uma
análise em um alto nível de abstração. Nesse
sentido, o presente artigo almeja percorrer um
terreno ainda pouco explorado pelos marxistas
brasileiros dedicados ao estudo do direito: a
função da propriedade privada na distribuição do
mais-valor. Para tanto, é necessário o estudo do
Livro III, no qual vemos como a essência do
capitalismo se apresenta imediatamente. Nesse
nível de abstração mais concreto, vemos que as
mercadorias não são vendidas pelos seus
valores, mas pelos seus preços de mercado,
mediados pelos preços de produção. Vemos
como a partir do estabelecimento de uma taxa
geral de lucro os capitais concorrem entre si em
busca do lucro médio. Nesse processo de
equalização, o valor assume variadas formas e é
distribuído entre as distintas classes e as frações
de classe. Tal dinâmica oculta o trabalho e
destaca a propriedade privada como princípio
distributivo. O valor apropriado por determinado
capital não corresponde à quantidade de valor
que o trabalho nele empregado de fato criou: os
capitais que mais criam mais-valor dividem-no
com outros capitais que não o criaram na mesma
medida e até mesmo com capitais que não
Abstract: In Brazil, the Marxist critique of law is
hegemonically grounded in The general theory
of Law and Marxism by Evgeny B. Pashukanis.
The cornerstone of this critique is the centrality
of law in the formal equivalence between
capitalists and workers, which enables the sale
of labor power. Although the relevance of the
Soviet author is undeniable, the focus of his
work is limited to part of Volume I of Capital, in
which it is assumed that commodities are sold
at their values. Therefore, it constitutes an
analysis at a high level of abstraction. In this
sense, the present article aims to explore a
terrain that remains relatively underexamined by
Brazilian Marxists dedicated to the study of law:
the function of private property in the
distribution of surplus value. To this end, it is
necessary to engage with Volume III, in which
we see how the essence of capitalism presents
itself at the level of immediate appearances. At
this more concrete level of abstraction, we
observe that commodities are not sold at their
values, but at their market prices, mediated by
prices of production. We see how, with the
establishment of a general rate of profit, capitals
compete with one another in pursuit of average
profit. In this process of equalization, value
assumes various forms and is distributed among
different classes and class fractions. This
dynamic obscures labor and foregrounds
private property as a distributive principle. The
value appropriated by a given capital does not
correspond to the quantity of value actually
created by the labor it employs: capitals that
generate more surplus value share it with other
capitals that did not produce it to the same
extent, and even with capitals that produced no
*
Professor substituto da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Doutor em filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutorando em serviço social pela
0967.
ISSN 1981 - 061X – v. 31, n. 1 – jan.-jun., 2026
Verinotio
nova fase