dossiê
DOI 10.36638/1981-061X.2026.31.1.801
Desenvolvendo a “crítica ausente” do direito:
entre o jovem Marx e as margens de O capital
Developing the “missing critique” of law: Between
Marx’s early and mature writings
Resumo: Este artigo investiga a "crítica ausente"
do direito a partir de uma leitura que busca
estabelecer uma ponte entre os escritos do
jovem Marx de 1843, especificamente a Crítica
da filosofia do direito de Hegel e Sobre a questão
judaica, e seus escritos de maturidade em O
capital. Sustenta-se que essa crítica ausente não
se encontra explicitamente formulada na obra de
Marx, mas pode ser construída quando se
reconhece que os referidos escritos do jovem
Marx examinam o caráter abstrato do estado
moderno, ao passo que o Marx da maturidade
expressa o caráter abstrato da sociedade civil,
isto é, da totalidade das relações econômicas. O
direito se posiciona como o meio-termo entre
essas duas esferas da vida social, perfazendo
tanto a abstração da sociedade civil quanto a do
estado político moderno. Nesse percurso, a
contribuição de Pachukanis é mobilizada para
qualificar a figura do sujeito de direito como a
forma elementar que articula a conceituação do
jovem Marx sobre a “pessoa burguesa” e a
apresentação do Marx da maturidade sobre os
“guardiões” ou “possuidores” de mercadorias,
em última instância enraizada na noção de
sujeitos sem subjetividade, uma contradição que
expressa a existência (abstrata) da vontade livre
e o fato de que os indivíduos se tornam joguetes
de poderes estranhos, como meros portadores
de relações econômicas. Por fim, propõe-se uma
reavaliação da relação entre Marx e Hegel como
críticas complementares – e não opostas – da
sociedade capitalista, expandindo o horizonte da
crítica das formas econômicas e das formas
jurídicas.
Abstract: This paper investigates the "missing
critique" of law by seeking to bridge Marx's
early writings of 1843, specifically the Critique
of Hegel's philosophy of right and On the Jewish
question, and his mature writings in Capital. It
is argued that this missing critique is not
explicitly formulated in Marx's work, but can be
constructed once it is recognized that the
aforementioned early writings examine the
abstract character of the modern state, whereas
the mature Marx expresses the abstract
character of civil society, that is, of the totality
of economic relations. Law stands as the
middle-term between these two spheres of
social life, perfecting both the abstraction of
civil society and that of the modern political
state.
In
this
trajectory,
Pashukanis's
contribution is mobilized in order to qualify the
figure of the legal subject as the elementary
form that articulates young Marx's account of
the "bourgeois person" and the mature Marx's
presentation of the "guardians" or "owners" of
commodities, ultimately rooted in the notion of
subjects without subjectivity, a contradiction
that expresses the (abstract) existence of free
will and the fact that individuals become
playthings of alien powers, as mere bearers of
economic relations. Finally, a reassessment of
the relationship between Marx and Hegel is
proposed as complementary – rather than
opposed – critiques of capitalist society,
expanding the horizon of the critique of
economic forms and legal forms.
Keywords: Marx; Hegel; Pashukanis; Civil
society; State; Legal form.
Palavras-chave: Hegel; Pachukanis; Sociedade
civil; Estado; Forma jurídica.
* Pesquisadora independente. Advogada. Doutora em direito, na área de concentração Filosofia e Teoria
Geral do Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FD-USP). E-mail:
ISSN 1981 - 061X – v. 31, n. 1 – jan.-jun., 2026
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